quarta-feira, maio 10, 2017

Fatima: visões ou aparições?


Partilho o texto sobre este assunto publicado no «Observador»:

http://observador.pt/opiniao/fatima-visoes-ou-aparicoes/



FÁTIMA: VISÕES OU APARIÇÕES?
Leopoldo de Almeida - Martins Barata, Altar de Nossa Senhora de Fátima - Igreja de Santo Eugénio, Roma (1951)
 

 

Pode haver visões ou aparições? Como se distinguem? E que aconteceu em Fátima? Foram aparições ou simplesmente visões?

O filósofo francês Jean Guitton (1901-1999), num livro intitulado Os misteriosos poderes da fé, escrito em diálogo com o jornalista e escritor Jean-Jacques Antier, (edição francesa de 1997 e tradução portuguesa de 2000), observa que as pessoas com fé tendem a admitir que as visões ou aparições são possíveis e que até já aconteceram muitas vezes, ao passo que os descrentes ou céticos dirão que não têm qualquer consistência ou realidade, nem sequer podem existir. Para estes, aquilo a que chamamos visão ou aparição não é mais do que um estado doentio em que o protagonista se apercebe de uma sensação sem que esta tenha nenhuma causa real na sua origem. Para os crentes, porém, a aparição ou visão é uma experiência real (p. 283 da edição portuguesa).

Admitindo que possam existir, como se distinguem «visões» de aparições»?

O mesmo filósofo distingue entre visões exteriores e visões interiores. “As visões exteriores, ou visões sensíveis, ou aparições, implicam a representação de uma entidade sobrenatural – por exemplo a Virgem Maria – sob uma forma percetível aos sentidos”. Aqui, “o objeto apresenta-se no espaço real e aqueles que acompanham o vidente podem vê-lo ou não. Pelo contrário, as visões interiores são circunscritas exclusivamente à consciência do vidente, e as eventuais testemunhas não as veem” (p. 284).

A distinção essencial é, portanto, entre “visão interior, cujo objeto está circunscrito à consciência do sujeito, e a visão exterior (ou aparição), cujo objeto se apresenta sensivelmente no espaço real” (p. 285).

O teólogo francês Louis Bouyer, no seu Dicionário de Teologia, define assim o conceito de aparição: “Chama-se aparição a uma manifestação de Deus, dos anjos ou até de seres humanos que já morreram, (santos ou não), que se apresenta de uma forma que impressiona os sentidos”. E conclui: “Deus, os anjos e os santos podem manifestar-se a nós, se tal for a vontade divina, tanto por uma simples impressão sobrenatural feita sobre a nossa imaginação, como pela apresentação objetiva aos nossos sentidos de uma realidade corporal ou material de origem milagrosa” (trad. espanhola de 1990, p. 84).

E em Fátima, para aqueles que acreditam, houve visões ou aparições?

O filósofo português Carlos Henrique do Carmo Silva, num artigo publicado por ocasião do 80º aniversário dos acontecimentos de Fátima (“Aparições e experiências místicas: reflexão sobre o fenómeno de Fátima e contributo para uma sua renovada meditação espiritual”, Didaskalia, Lisboa 1998), caracteriza o que aqui aconteceu como “um celeste contacto” (p. 21), expressão que, só por si, alude à mesma “realidade objetiva” de que falam os autores anteriormente citados.

Uma aparição é, portanto, “um celeste contacto”, que ali está, “no espaço exterior”, sob a forma de “uma realidade corporal ou material”, mas indubitavelmente – e nem poderia ser de outra maneira – “de origem milagrosa”.

Assim sempre se considerou terem sido os acontecimentos de Fátima: isto é, “aparições”, e não simplesmente “visões” da Virgem Santa Maria.

“Na idílica, porém rústica, paisagem da Cova da Iria, como já nos Valinhos, e no pastoreio a que se dedicavam Lúcia, Francisco e Jacinta, surgem recortes de uma outra Presença que lhes aparece e se torna sensível”. Assim resume Carlos Henrique do Carmo Silva estes acontecimentos, fazendo notar logo de seguida que “se toma aqui a aparição não como uma visão (de diversas «imagens invisíveis», de um magma fantasmático, ou de uma clarividência confusa, semelhante à da consciência onírica...), mas na aceção do aparecer visível de uma figura, um recorte presencial que distintamente se sobrepõe ao regime do mundo da perceção habitual” (p. 37 e nota 82).

As aparições de Fátima são esta presença objetiva e exterior da Virgem, manifestada aos três Videntes, presença tão objetiva como a das árvores ou das casas, ou das próprias ovelhas que pastoreavam, distinta destas ou de quaisquer outras realidades, porém, por ser sobrenatural e de origem miraculosa.

Em sentido contrário, porém, temos um texto assinado pelo Cardeal J. Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, ao tempo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sob o título de Comentário Teológico, e incluído num conjunto de Documentos sobre «A Mensagem de Fátima», com data de 26 de junho de 2000.

O Comentário começa por recordar a distinção perfeitamente tradicional entre os três tipos de visões:

“A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de perceção ou «visão»: a visão pelos sentidos, ou seja, a perceção externa corpórea; a perceção interior; e a visão espiritual”.

Mas, depois de ter reconhecido a existência de três tipos de visão, o Comentário limita consideravelmente o seu alcance, pois, segundo ele, quer a visão seja interna ou externa, o vidente deforma necessariamente o que viu.

O Comentário exclui em seguida categoricamente que os acontecimentos de Fátima (ou de Lourdes) possam ser visões exteriores ou sensíveis, e classifica-as deliberadamente entre as visões interiores:

“É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc., não se trata da perceção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa”.

Para o provar, dá um exemplo que parece incontestável:

“Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do «segredo» de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do «segredo».

Mas também não se tratou de uma simples visão espiritual ou intelectual:

“De igual modo, é claro que não se trata duma «visão» intelectual sem imagens, como acontece nos altos graus da mística. Trata-se, portanto, da categoria intermédia, a perceção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível”. 

E acrescenta:

“Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjetiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos «sentidos internos». Trata-se de verdadeiros «objetos» que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. (…) A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis”.

E insiste:

(…) As imagens por eles [os pastorinhos de Fátima] delineadas (…) também não se hão de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo um dia na união definitiva com Deus”.

O Comentário nega, portanto, a realidade dos fenómenos exteriores, e não vê, nas visões de Fátima, senão uma perceção interior dos videntes. Para ele, em Fátima como em Lourdes, as figuras vistas pelos videntes não se encontram exteriormente no espaço!

A descrição da Virgem pelas crianças não seria, portanto, mais do que uma imagem daquilo que eles captaram interiormente. Por outras palavras, Nossa Senhora não teria vindo a Fátima: os visitantes não tiveram senão uma perceção interior da sua presença.

Esta leitura do Cardeal Ratzinger pode ser contestada?

Pode, claramente, em primeiro lugar porque, embora seja um texto oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, não é uma “Instrução” nem uma “Notificação”, como tantas que o Cardeal Ratzinger assinou, recebendo depois a aprovação do Papa, que ordena em seguida a sua publicação. Veja-se como termina, por exemplo, uma “Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura”, publicada em 14 de Setembro de 2000: “O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida ao abaixo-assinado Prefeito, aprovou a presente Instrução, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada.

Este modo solene de conclusão com a aprovação papal não existe neste caso, o que se compreende, porque o texto em apreço não pretende ser mais do que um “Comentário”, que intencionalmente não se reveste de especial autoridade no âmbito do Magistério da Igreja. Será legítimo, portanto, se houver razões para isso, pensar de modo diferente ou até discordar sobre matérias que nele se abordam, sem prejuízo do grande respeito que nos merecerá sempre o seu Autor.

Julgo, porém, que existem muitas razões para discordar da classificação dos acontecimentos de Fátima neste género intermédio, isto é, como sendo simples visões interiores, ainda que genuínas e de origem sobrenatural.

A verdade é que a Ir. Lúcia era de uma opinião totalmente contrária: ela estava certa de ter visto realmente a Virgem Maria, como esperava um dia vê-la no Céu. Em 1924, na comissão de inquérito canónico, foi-lhe feita esta pergunta: “Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”

E Lúcia respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário”.

“E quem era essa Senhora?”

Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora” (Documentação Crítica de Fátima, doc. 82, p. 324).

No decurso da sua vida, a Ir. Lúcia não teve só visões sensíveis ou aparições, mas foi sujeita aos três tipos de visões acima referidos. As inspirações que receberá do Céu em resposta às suas interrogações serão frequentemente uma perceção interior. Já a visão de Tuy (13 de Junho de 1929) deverá, pelo contrário, integrar-se no segundo tipo, pois a Ir. Lúcia diz que viu, e não há nenhuma razão para duvidar do seu testemunho. Mas as personagens ou objetos desta imagem não estavam presentes fisicamente, em particular Deus Pai: portanto, dificilmente pode tratar-se de uma visão sensível.

A visão do inferno pode igualmente ser inserida nesta categoria, visto que, como nota o Comentário do Cardeal Ratzinger, o fogo não se ateou na Cova da Iria! Claro que o inferno não esteve, fisicamente, diante dos pequenos videntes: eles viram-no graças àquela luz que emanava das mãos da Virgem.

Mas o facto de a visão do inferno ser da categoria das visões imaginativas, não prova que o resto da visão o seja, pois, como diz Adolfo Tanquerey, numa obra clássica sobre o assunto, nada impede que haja diversas perceções diferentes no decurso de uma mesma aparição. Esta dupla perceção já se produziu, aliás, na primeira aparição de 13 de Maio de 1917. Pelo reflexo vindo das mãos da Virgem, os pastorinhos viram-se em Deus: esta visão é muito provavelmente uma visão interior, que vem acrescentar-se à visão sensível da Senhora. Nas aparições de 1917, é fácil discernir as visões interiores, pois elas são precedidas de um gesto de abertura das mãos da Virgem e por um raio de luz que emana das suas mãos, como para materializar a graça da visão dada.

Mas as visões de Nossa Senhora são seguramente visões sensíveis. É seguro que a Virgem Maria apareceu aos pastorinhos sob uma forma exterior sensível. O carácter ofuscante das aparições é também uma prova da realidade do corpo glorioso da Santíssima Virgem. A Lúcia foi muitas vezes obrigada a baixar os olhos, tão viva era a luz que emanava da Virgem. O Cón. Formigão perguntou-lhe:

– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?

– É que ela às vezes cega (Documentação Crítica de Fátima, p. 58)

Na narrativa que fez da aparição de 13 de Outubro, disse:

“Veio no meio dum esplendor. Desta vez também cegava. De vez em quando eu tinha de esfregar os olhos” (J. de Marchi, Era uma Senhora mais branca que o sol, p. 177).

Também os fenómenos físicos que acompanharam os acontecimentos de Fátima e foram observados por numerosas testemunhas, não podem ser frutos de uma visão imaginativa. O seu número é impressionante. Esses fenómenos exteriores manifestam sem qualquer dúvida possível a presença efetiva de uma pessoa celeste.

Não só os videntes, mas também muitos daqueles que tiveram a graça de assistir (exteriormente) às aparições observaram esses fenómenos físicos, e isto em todas as aparições e não somente por ocasião do milagre do sol. Em parte nenhuma fora de Fátima, a Virgem rodeou a sua vinda e autenticou a sua presença de tantos sinais tão extraordinários. E essas testemunhas eram particularmente numerosas: cerca de 50 na 2ª aparição, 3 a 4000 na 3ª, 18 a 20.000 na 4ª, 25 a 30.000 na 5ª e cerca de 70.000 na última, estando alguns por vezes a vários quilómetros do lugar das aparições!

Por ocasião dos acontecimentos de Fátima, as testemunhas mais próximas puderam observar diversos fenómenos dificilmente atribuíveis a visões interiores. Mas outros fenómenos puderam ser observados por um grande número de testemunhas exteriores.

Foram eles os seguintes:

        I – Relâmpagos, que sempre antecedem as Aparições. Trovões, no momento preciso da Aparição, ou no seu termo, e cuja origem parecia provir da azinheira.

        II – Curvatura do arbusto, como se tivesse estado coberto por um manto, e com as folhas todas inclinadas na mesma direção (na segunda Aparição).

        III – Perfume, de essência nova e desconhecida, evolando-se do ramo da azinheira cortado dos Valinhos, e sentido pela senhora Maria Rosa e circunstantes, após a quarta Aparição.

        IV – Nubescente globo luminoso, avançado de Este para Oeste, e deslizando majestosamente através do espaço, até tocar a azinheira (na quinta Aparição).

        V – Nuvem branca ou matizada, e de vista agradabilíssima, que várias vezes se formou em torno dos Videntes, com vaporizações de fumo ascendente até cinco ou seis metros de altura. E, isto, por três vezes bem distintas, na mesma Aparição.

        VI – Chuva evanescente de rosas, com rosinhas brancas, maiores vistas de longe, e que, pouco a pouco, se vão tornando mais pequenas, com o aproximarem-se do chão, até desaparecendo de todo.

        VII – Diminuição da luz solar em pleno meio-dia, sem nuvens nem eclipses. Viam-se a Lua e as estrelas. Este fenómeno verificou-se em todas as Aparições, à excepção da última. Quanto à primeira Aparição, não se sabe.

        VIII – Milagre do Sol, que, segundo os testemunhos, consta de três fases:

a) O Sol torna-se opaco, com reflexos de madrepérola; pode-se fixar sem dificuldade, havendo ausência absoluta de nuvens e de eclipse;

b) Irradiações de cores, com rotação em feixes irisados que se difundem por todo o céu, semelhantes a fogo-de-artifício,

c) Movimento do disco solar, como que aumentando, ao princípio e dando a sensação de se precipitar sobre a terra; em seguida, movimento de translação do disco sobre o firmamento, de relance, tanto em linha retilínea, como quebrada.

“Em geral, podemos dividir, em duas classes, todos estes fenómenos: a primeira consta de fenómenos instantâneos; a segunda, de fenómenos estáveis. Os primeiros foram os relâmpagos e os trovões; os segundos, todos os outros. Compreende-se desta forma que Fátima se tenha imposto e triunfado..." (Sebastião Martins dos Reis, “Síntese crítica de Fátima”, Junta Distrital de Lisboa, Boletim Cultural, 1987/68. p. 86-88).  

O Cardeal J. Ratzinger foi eleito Papa em 2005. O seu pensamento sobre Fátima mudou?

Os seguintes pronunciamentos falam por si:

1. “Decorre hoje o nonagésimo aniversário das APARIÇÕES de Nossa Senhora em Fátima. Com o seu veemente apelo à conversão e à penitência é, sem dúvida, a mais profética das APARIÇÕES modernas. Vamos pedir à Mãe da Igreja, Ela que conhece os sofrimentos e as esperanças da humanidade, que proteja nossos lares e nossas comunidades”. (Papa Bento XVI, 13/5/2007)
2. "Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira VISITA feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana." (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

3. "Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, VEIO DO CÉU a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das APARIÇÕES apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade. (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

4. «O meu pensamento vai para Nossa Senhora de Fátima, de quem hoje recordamos a última APARIÇÃO. À Celeste Mãe de Deus vos confio, caros jovens, para que possais generosamente responder à chamada do Senhor.» (Papa Bento XVI, 13/10/2010).



sábado, abril 01, 2017

A ressurreição de Lázaro e as duas etapas da conversão


Orígenes, grande teólogo do séc. III (+ 253) explica assim a ressurreição de Lázaro[1]: a sua alma tinha-o deixado; ela tinha ido para a «morada dos mortos». De lá foi trazida de novo; penetrou no sepulcro. Desde que a pedra foi retirada, Jesus apercebe-se disso. Daí a sua oração: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste (João 11, 41-42)». Por fim, a ordem de Jesus comunica a essa alma a «tensão» ou energia[2], necessária à ressurreição do morto. “Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora»” (João 11, 43). O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir»” (João 11, 44).
Ressurreição de Lázaro - Catacumbas da Via latina (séc. IV)
 

Pinturas muito antigas do séc. III na Catacumba de Calisto e uma pintura do séc. IV na Catacumba de Domitila mostram Lázaro liberto das suas ligaduras e já a caminhar. Mas também há muitos casos em que é representado ainda ligado e por vezes curvado. Noutros casos, porém, Lázaro aparece já a andar. Quando o representam a andar, essas imagens querem mostrar Lázaro a obedecer à voz de Cristo, que lhe diz: “Lázaro, sai para fora”.
Ressurreição de Lázaro - Catacumba dos Santos Marcelino e Pedro (séc. III)
 
Como é que ele anda, com os pés ainda ligados? Muitos Padres viram aqui um sinal do poder da graça de Deus. Santo Agostinho diz que não era pelos seus próprios pés que ele andava, mas graças ao poder d’Aquele que lhe ordenava que saísse. “Era o efeito do poder do Senhor, não das forças da morte”[3], diz Santo Agostinho, que não perde de vista que esse passo em frente de Lázaro simboliza a confissão das faltas e a decisão de mudar de vida, para a qual o homem não encontra forças em si mesmo, mas só na graça de Deus. Este Lázaro, que depois é liberto das faixas com que estava ligado, é considerado, desde Santo Ireneu, o símbolo do homem preso nos seus pecados. É por isso que o Senhor diz: “Desligai-o e deixai-o ir”[4].

Para Orígenes, tal como para Santo Agostinho, o relato de S. João põe em cena duas etapas da conversão: o arrependimento inicial, simbolizado pela saída do túmulo, e a remissão dos pecados concedida pelo Senhor, manifestada pela remoção das vestes funerárias. “O discípulo de Jesus, escreve Orígenes, pode verificar como é que este homem sai do túmulo, graças à voz de Jesus, mas ainda ligado e atado pelas faixas dos seus próprios pecados, vivo pelo arrependimento ao escutar a voz de Jesus, mas com os pés e as mãos ainda presos pelas ligaduras dos mortos, porque ainda não foi liberto dos laços do pecado, e ainda não pode andar com os pés livres nem realizar livremente o bem”. “Em relação a libertar-se inteiramente do túmulo, ainda é incapaz de o fazer, enquanto continuar ligado”; “mas, depois de Jesus falar àqueles que o deviam desligar, (...), Lázaro ficou com os pés e as mãos livres; quando depôs o véu que lhe tinha coberto o rosto e que lhe foi tirado, começou a andar, de maneira a integrar-se também no meio daqueles que se põem à mesa com Jesus”[5]. Estas duas etapas da ressurreição de Lázaro, Orígenes vê-as já no tempo presente; para Agostinho, a primeira é já aqui na terra, mas a segunda é a vida futura; pois se, em resposta ao apelo de Cristo, o homem já pode caminhar nas vias de Deus, é com uma liberdade ainda ‘coxa’: esta liberdade só será total na ressurreição escatológica[6].

Quem desliga Lázaro? S João não o concretiza, e os Padres hesitaram neste ponto. Para Orígenes, trata-se “daqueles que o podem desligar”, “aqueles que lhe podem prestar esse serviço”: são evidentemente os ministros da Igreja[7]; o mesmo para santo Ambrósio de Milão, mesmo sendo tão impreciso como Orígenes sobre este ponto[8]. Santo Agostinho, por sua vez, é totalmente explícito: “Foi dito aos ministros, que são os apóstolos: «Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu» (Mateus 16, 19)”, e portanto, as palavras de Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir” são uma ordem dada àqueles que, na Igreja, são os seus sucessores[9].

É sem dúvida por alusão a este poder eclesiástico de perdoar os pecados, que se vêem por vezes, já antes da época de Constantino, dois apóstolos que rodeiam Cristo quando ressuscita Lázaro. Não são as tradicionais cabeças de discípulos que povoam o fundo de várias cenas nos sarcófagos: têm a mesma estatura que Jesus e são representados de pé[10].

É, portanto, mediante o ministério apostólico e sacerdotal que acontece a definitiva libertação do pecado e da morte, pelo poder e autoridade de Cristo.



[1] In Iohan. 28, 6 e 7.
[2] Em grego, ‘eutonia’.
[3] Comentário ao Salmo 101, 2, 3.
[4] Adversus haerees, 5, 13
[5] In Iohan. 28, 57. 59. 60.
[6] Div. Quaest., 65.
[7] In Iohan. 28, 54.
[8] Paen. 2, 58.
[9] In Iohan. 22, 7.
[10] Cf. Les Pères de l'Eglise dans le monde d'aujourd'hui, editado por Cristian Badilita,Charles Kannengiesser,New Europe College, Editions Beauchesne, 2006, p. 145-146.

domingo, novembro 20, 2016

A vitória da cruz

Crucifixo do retábulo da Igreja do Seminário dos Olivais (porm.)

(…) Entre os personagens da paixão com os quais nos podemos identificar dou-me conta que não mencionei um, aquele que mais espera que sigam o seu exemplo: o bom ladrão.

 
O bom ladrão faz uma completa confissão de pecado; diz ao seu companheiro que insulta Jesus: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável» (Lucas 23, 40s.). O bom ladrão demonstra-se um excelente teólogo. De facto, só Deus sofre absolutamente como inocente; outro ser que sofre deve dizer: «sofro justamente», porque embora não seja responsável pela acção que me é atribuída, nunca sou totalmente sem culpa. Só o sofrimento das crianças inocentes se assemelha com o de Deus e por isso é tão misterioso e sagrado.
 


Quantos delitos atrozes permaneceram nos últimos tempos sem um culpado, quantos casos sem solução! O bom ladrão lança um apelo aos responsáveis: fazei como eu, denunciai-vos, confessai a vossa culpa: experimentareis também vós a alegria que senti quando ouvi a palavra de Jesus: «Hoje estarás comigo no paraíso!» (Lucas 23, 43). Quantos réus confessos podem confirmar que foi assim também para eles: passaram do inferno para o paraíso no dia que tiveram a coragem de se arrepender e confessar a própria culpa. Conheci alguns. O paraíso prometido é a paz da consciência, a possibilidade de se olhar no espelho ou para os próprios filhos sem sentir desprezo por si mesmo.

 

Não leveis para o túmulo o vosso segredo; provocar-vos-ia uma condenação muito mais temível do que a humana. O nosso povo não é cruel com quem errou, mas reconhece o mal feito, sinceramente, não só pelos cálculos. Ao contrário! Está pronto a ter piedade e acompanhar o arrependido no seu caminho de redenção (que em muitos casos se torna breve). «Deus perdoa muitas coisas, por uma obra boa», disse Lúcia ao Inominado no livro «Os Noivos». Ainda mais, é preciso dizer, ele perdoa muitas coisas por um acto de arrependimento. Prometeu solenemente: «Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã» (Isaías 1, 18).

 

Retomemos agora, ouvimos no início, a nossa tarefa neste dia: com voz de alegria exaltemos a vitória da cruz, entoemos hinos de louvor ao Senhor. «O Redemptor, sume carmen temet concinentium»: E tu, ó nosso Redentor, acolhe o cântico que te elevamos.


 

sábado, abril 02, 2016

«Não sejas incrédulo, mas crente»


Estamos no 2º Domingo da Páscoa. Como sempre, na 1ª leitura da Missa durante o Tempo Pascal, abrimos os Actos dos Apóstolos e lançamos um olhar fascinado para a vida da primitiva Igreja. É um tempo de milagres, de intensa caridade e também de grande expansão. E hoje, continua a ser assim? Vivemos o mesmo entusiasmo dos primeiros cristãos? E será que no futuro o número de cristãos continuará a aumentar?
Assim tem acontecido, graças a Deus. De facto, há cerca de um ano, o Vaticano apresentou a mais recente edição do Anuário Estatístico da Igrejao qual revela que entre 2000 e 2013 o número de católicos passou de 1045 milhões para 1254 milhões, um aumento de 20%. O maior crescimento aconteceu em África, com um aumento de 34%. A Europa, infelizmente, confirma a tendência de ser a área com menor dinâmica de crescimento, com mais 6,5 milhões de batizados desde 2005, num total de 287 milhões de católicos (um crescimento de 2,3%).

Não devemos deixar de reflectir serenamente sobre este assunto à luz da Palavra de Deus que hoje ouvimos. A 1ª leitura dizia-nos que “cada vez mais gente aderia ao Senhor, pela fé”. Quando lemos os Actos dos Apóstolos, vemos que S. Lucas se refere muitas vezes a este crescimento constante e progressivo da Igreja: é como se ele estivesse já a ver o cumprimento das parábolas do grão de mostarda e do fermento, que Jesus contou. Mas foi mesmo assim que aconteceu: logo naqueles primeiros tempos depois da ressurreição e ascensão de Jesus, houve muitas conversões. Só no Dia de Pentecostes, depois de ouvirem Pedro, pediram o baptismo cerca de três mil pessoas (Actos 2, 41).
No entanto, no passo que hoje ouvimos, S. Lucas dizia também que havia ainda pessoas hesitantes, receosas: os discípulos estavam “unidos pelos mesmos sentimentos”, isso notava-se exteriormente, “o povo enaltecia-os”, mas “nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles”. Quem são estes “outros”? A quem se refere S. Lucas? Deviam ser alguns que estavam ainda dominados pelo temor dos chefes do povo, que tinham condenado Jesus à morte. Tinham medo de ser perseguidos, e por isso não davam o passo final da conversão a Jesus Cristo, não aceitavam o dom da fé, não aderiam à Igreja.
Creio que também nós encontramos hoje muitas pessoas hesitantes, que não se decidem a dar este passo decisivo da conversão e a aderir plenamente a Jesus pela fé. Quais serão os motivos desta hesitação? Às vezes há pessoas que têm dificuldades ou interrogações quanto a certos aspectos da fé ou da doutrina cristã. Não é de estranhar, porque o mistério de Deus é uma luz que supera as nossas capacidades. Mas, quando isto acontece, devemos saber ouvir, desenvolver um diálogo aberto e sincero, e depois procurar esclarecer serenamente essas dificuldades com a ajuda do Espírito Santo.
No entanto, noutros casos, o que falta a muitas pessoas é a coragem de mudar de vida, ou antes, o que lhes falta é a coragem de passar a viver de um modo novo, como é próprio dos que acreditam em Jesus ressuscitado. Há pessoas que gostariam de viver segundo o Evangelho, mas pensam que não são capazes. Gostariam de ser mais generosos, mas sentem que continuam a ser egoístas. Desejariam vencer este ou aquele defeito, mas continuam a fracassar. Desejariam ser melhores, na vida de família, no trabalho, na amizade, na caridade, no desprendimento e em tantas outras virtudes, mas muitas vezes reconhecem que falham. E então desistem. Deixam-se levar por uma certa resignação, convencem-se de que não há nada a fazer, perdem a esperança, e com a perda da esperança, quase perdem a fé, ou chegam mesmo a deixar morrer a fé nos seus corações.
Como vencer este desânimo, como superar esta dificuldade, que leva tantas pessoas, na prática, a viver uma vida cristã frouxa e hesitante? Só há uma maneira: é aceitar aquele convite que o próprio Jesus ressuscitado fez a Tomé, quando apareceu de novo aos seus discípulos, “oito dias depois” do seu primeiro encontro com eles, no Domingo de Páscoa. Jesus disse a Tomé: “«Não sejas incrédulo, mas crente»”. Estas palavras de Jesus, que hoje ouvimos no Santo Evangelho, não são uma repreensão a Tomé, não são uma censura, mas sim uma exortação premente à fé, e dirigem-se também a cada um de nós. “«Não sejas incrédulo, mas crente»”, diz-nos também hoje Jesus.
REMBRANDT, A incredulidade de S. Tomé (1634)

É um convite à fé, é um desafio, sim, mas devemos reconhecer que, antes de o ser, é um dom. Jesus ressuscitado dá-nos a graça da fé, pela qual, apoiando-nos no testemunho daqueles que O viram, acreditamos pessoalmente em Jesus, mesmo sem O ter visto. Como é evidente, ninguém acredita com a fé dos outros, mas, apoiando-nos na experiência e no testemunho dos outros, em particular dos Apóstolos, que viram Jesus, cada um de nós pode dizer, com toda a verdade, diante de Jesus, como S. Tomé: “«Meu Senhor e meu Deus»”.
E, quando o fazemos, somos felizes. O próprio Jesus quis deixar-nos esta certeza e esta firme consolação: “«Felizes os que acreditam sem terem visto»”. Estas foram as últimas palavras ditas por Jesus no Cenáculo, no termo das suas aparições em Jerusalém. S. João diz expressamente que o seu Evangelho foi escrito para acreditarmos “que Jesus é o Messias, o Filho de Deus”, e para que, acreditando, tenhamos a vida “em seu nome”. Na verdade, é uma enorme graça ter fé. É ela que nos permite conhecer Jesus Cristo, e nos abre ao perdão dos pecados e à efusão do Espírito Santo.
Pela fé, vencemos o medo, o desânimo e as tentações contra a esperança. A 2ª leitura levava-nos a escutar estas palavras reconfortantes de Jesus, ouvidas um dia pelo autor do Apocalipse: “«Não temas»”. Estas palavras convidam-nos a dirigir o olhar para Jesus Cristo, para experimentarmos a sua presença, que nos enche de paz, em todas as circunstâncias. Mesmo nos momentos mais difíceis, Jesus diz-nos: “«Não temas!»”E acrescenta: “«Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo pelos séculos dos séculos»” Se Deus te chama a uma vida vivida na verdade e na caridade: “«Não temas!»” Se te chama a uma vida de consagração ao seu serviço: “«Não temas!»” Se te envia a falar de Jesus aos outros: “«Não temas!»” Se, por causa disso, te criticam ou até te perseguem: “«Não temas!»”. Ele é o Primeiro, ou seja, a fonte do ser, e o Último, isto é, o fim da história. D’Ele parte e para Ele converge toda a vida humana. É a fonte inesgotável da vida, que venceu a morte para sempre.
Quando Jesus apareceu aos discípulos, na tarde do Domingo de Páscoa, “mostrou-lhes as mãos e o lado”: as mãos com que foi preso ao madeiro, e o lado, ou o peito, trespassado pela lança do soldado.  Do peito trespassado de Jesus sai uma vaga de misericórdia para toda a humanidade. Neste 2º Domingo da Páscoa, que é o Domingo da Divina Misericórdia, confiamos a Jesus o mundo inteiro e todos os homens da Terra, para que se acenda no coração de todos a luz da fé em Jesus Cristo ressuscitado, e com ela a esperança e a caridade, que nos tornam felizes, já hoje, e um dia plenamente, por toda a eternidade.

domingo, dezembro 20, 2015

Jesus nasceu em Belém ou em Nazaré?

Palestina no tempo de Jesus
S. Mateus disse, de maneira explícita, que Jesus nasceu em “Belém de Judá, no tempo do rei Herodes” (Mt 2, 1; cf. 2, 5.6.8.16) e o mesmo referiu S. Lucas (Lc 2, 4.15). O quarto evangelho menciona-o de uma maneira indirecta. Gerou-se uma discussão a propósito da identidade de Jesus e “uns diziam: «Este é verdadeiramente o Profeta». Outros diziam: «Este é o Messias». Alguns, porém, diziam: «Porventura é da Galileia que há-de vir o Messias? Não diz a Escritura que o Messias há-de vir da descendência de David e da aldeia de Belém, donde era David?»” (Jo 7, 40‑42). O quarto evangelista serve-se aqui de uma ironia: ele e o leitor cristão sabem que Jesus é o Messias e que nasceu em Belém. Alguns oponentes a Jesus querem demonstrar que Ele não é o Messias dizendo que, para sê-lo, teria nascido em Belém e, pelo contrário, eles sabem (pensam saber) que nasceu em Nazaré. Este procedimento é habitual no quarto evangelho (Jo 3, 12; 6, 42; 9, 40-1). Por exemplo, quando a mulher samaritana pergunta: “És Tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacob?” (Jo 4, 12). Os ouvintes de João sabem que Jesus é o Messias, Filho de Deus, superior a Jacob, de modo que a pergunta da mulher era uma afirmação dessa superioridade. Portanto, o evangelista prova que Jesus é o Messias, inclusivamente com as afirmações dos seus oponentes.

Este foi o consenso comum entre crentes e investigadores durante mais de 1900 anos. Contudo, no século passado, alguns investigadores afirmaram que Jesus é considerado em todo o Novo Testamento como “o nazareno” (aquele que é, ou que provém de Nazaré) e que a referência a Belém como lugar do nascimento não passa de uma invenção dos dois primeiros evangelistas, que revestem Jesus com uma das características que, naquele momento, se atribuíam ao futuro Messias: ser descendente de David e nascer em Belém. O certo é que uma argumentação como esta não prova nada. No século I diziam-se bastantes coisas sobre o futuro Messias e que não se cumprem em Jesus, mas, tanto quanto sabemos – apesar do que possa parecer (Mt 2, 5; Jo 7, 42) – não parece que a do nascimento em Belém tenha sido umas das que se invocaram mais frequentemente como prova. É antes preciso pensar de modo contrário: é pelo facto de Jesus, que era Nazaré (ou seja, tendo sido criado lá), ter nascido em Belém que os evangelistas descobrem nos textos do Antigo Testamento que se cumpre n´Ele essa qualidade messiânica.

Todos os testemunhos da tradição confirmam, além disso, os dados evangélicos. S. Justino, nascido na Palestina por volta do ano 100 d.C., menciona, uns cinquenta anos mais tarde, que Jesus nasceu numa gruta próxima de Belém (Diálogo 78). Orígenes também dá testemunho disso (Contra Celso I, 51). Os evangelhos apócrifos testemunham o mesmo (Pseudo-Mateus, 13; Proto evangelho de Tiago, 17ss; Evangelho da infância, 2-4).

Em resumo, o parecer comum dos estudiosos de hoje, é que não há argumentos fortes para ir contra o que afirmam os evangelhos e nos foi transmitido por toda a tradição: Jesus nasceu em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes.

Bibliografia: A. Puig, Jesús. Una biografía, Destino, Barcelona 2005; J. González Echegaray, Arqueología y evangelios, Verbo Divino, Estella 1994; S. Muñoz Iglesias, Los evangelios de la infancia. IV, BAC, Madrid 1990.

Vicente Balaguer

Fonte:

 

quinta-feira, novembro 12, 2015

Quando Martinho era ainda catecúmeno

Martinho, ainda um catecúmeno, cobriu-me com esta veste
 
 
 
 
"E a dada altura, quando já não tinha nada para além das armas e da simples veste de militar, a meio de um Inverno que se eriçava mais asperamente do que o habitual, ao ponto de a força do frio fazer muitos sucumbir, havia junto à porta da cidade de Amiens um pobre nu. Embora este suplicasse aos que passavam para dele se apiedarem, todos passavam ao lado do desgraçado. O Varão, arrebatado em Deus, compreendeu, enquanto os outros não prestavam qualquer tipo de auxílio, que aquele estava guardado para si. Mas que fazer? Nada tinha para além da clâmide, com a qual se cobria: pois já havia gastado o que lhe restara numa obra semelhante. Então, arrancando a espada que tinha à cintura, rasga-a pelo meio e doa-a ao pobre, cobrindo-se novamente com a outra metade. Ao mesmo tempo, dos que estavam nas vizinhanças, alguns riram, pois por causa da veste ele parecia um ser disforme amputado; contudo muitos, cujo espírito era mais puro, lamentaram profundamente, por não terem feito nada de semelhante, já que, possuindo mais, teriam podido igualmente vestir o pobre, sem a sua própria nudez.
"Desta feita, na noite seguinte, quando se entregou ao sono, viu Cristo vestido com a parte da sua clâmide que havia abrigado o pobre. Ordena-se-lhe que repare, atentissimamente, no Senhor, e a reconhecer a veste que havia dado. Logo ouviu Jesus, com voz clara, dizendo para a multidão de anjos circundantes: “Martinho, ainda um catecúmeno, cobriu-me com esta veste”. Na verdade o Senhor está lembrado dos seus próprios ditos: “Sempres que fizerdes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes”, anunciando que Ele próprio fora vestido naquele pobre; e, para que ficasse ratificado o testemunho de tão boa obra, dignou-se a revelar-se no mesmo hábito que o mendigo recebera.
"Com esta visão, o bem-aventurado homem, reconhecendo-se pela sua obra extasiado, não em humana glória, mas na bondade de Deus, apesar de ter dezoito anos, correu para se batizar. Mas não renunciou logo ao exército, convencido pelas súplicas do seu tribuno, a quem prestava uma íntima familiaridade: com efeito este comprometeu-se a renunciar ao século quando acabasse o tempo do seu tribunado.
"Martinho, suspenso por esta esperança durante aproximadamente dois anos, serviu no exército após ter adquirido o batismo, ainda que servisse só de nome".

Sulpício Severo, Vida de S. Martinho, cap. III, tradução de André Antunes, em: A Vida de São Martinho, Estudo introdutório, tradução e comentário. Dissertação de Mestrado em Estudos Clássicos, área de especialização de Estudos Medievais e Renascentistas, orientada pela Doutora Paula Barata Dias, apresentada ao Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2014.
 

Ao contrário do que muitas vezes se ouve, não é correcto falar deste episódio como se se tratasse de uma «lenda», uma vez que é relatado por Sulpício Severo, na sua obra “Vida de S. Martinho”, escrita em 397, ainda em vida do Bispo de Tours. Para uma lenda é necessário muito mais tempo. Além disso, não há nenhum milagre neste relato, como é usual nas lendas de teor religioso, mas um acto de pura caridade.



sexta-feira, novembro 06, 2015

A doutrina de Jesus sobre o matrimónio. I) Mateus 5, 31-32


Será que S. Mateus adapta ou suaviza os ensinamentos de Jesus sobre o matrimónio?



A vocação de S. Mateus - Altar-Mor da Igreja de S. Mateus, Breslávia, Polonia

 

  1. Mateus 5, 31-32
Vamos começar por ler Mateus 5, 31-32
Também foi dito: «Quem repudiar a sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio». Eu, porém, digo-vos que todo aquele que repudiar a sua mulher, excepto no caso de união ilegal, fá-la cometer adultério; e quem casar com a repudiada, comete adultério.
(Na tradução latina, o que traduzimos por «excepto no caso de união ilegal», aparece como «excepta fornicationis causa», tanto na Vulgata como na Neo-Vulgata, como se pode ler aqui e aqui).

Este trecho tão breve - dois versículos apenas - reflecte sem dúvida o ensinamento do próprio Jesus Cristo.

Na verdade, não há dúvida, historicamente, de que Jesus defendia uma altíssima doutrina sobre o matrimónio, e defendia a sua indissolubilidade, uma posição provavelmente sem paralelos no judaísmo seu contemporâneo, ainda que não sem precedentes proféticos, particularmente no texto de Malaquias 2, 13-16.

Logo no início, com a expressão: “Também foi dito”, Jesus alude a Deuteronómio 24, 1-4, embora de uma forma resumida. Convém-nos parar um pouco neste passo do Deuteronómio.

O texto completo é um complicado fragmento de uma antiga lei que directamente se refere só ao caso particular de um segundo matrimónio com uma mulher que um homem tinha repudiado e que, tendo-se voltado a casar, foi de novo repudiada.

Vamos ler todo o texto. A maior parte das traduções fazem o texto dizer mais do que ele de facto diz, dividindo os períodos e autonomizando a referência ao libelo de repúdio:
“Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se ela não achar graça aos seus olhos, por haver ele encontrado nela algo vergonhoso, far-lhe-á um libelo de repúdio e lho dará na mão, e a despedirá de sua casa” (Deuteronómio, 24, 1).

Mas o que o texto original diz é diferente, e tem um desenvolvimento que visa sobretudo excluir que a mulher repudiada possa vir a ser de novo recebida pelo primeiro homem que a repudiou, depois de ter contraído nova união. Assim se lê em Deuteronómio 24, 1-4 (numa tradução mais fiel ao texto original):

1Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se ela não achar graça aos seus olhos, por ele ter encontrado nela algo vergonhoso, e lhe fizer um libelo de repúdio e lha der na mão, e a despedir de sua casa. 2e se ela, pois, saindo da casa dele, for, e se casar com outro homem, 3e este também a desprezar e, fazendo-lhe libelo de repúdio, lho der na mão, e a despedir de sua casa; ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer; 4então o seu primeiro marido, que a despedira, não poderá tornar a tomá-la por mulher, depois que foi contaminada; pois isso é abominação perante o Senhor. Não farás pecar a terra que o Senhor teu Deus te dá por herança .
 

(A tradução latina tanto da Vulgata como da Neo-Vulgata reflecte perfeitamente a complexidade redaccional deste texto, como se pode ler aquiaqui).

Nem este texto - nem qualquer outro do Antigo Testamento hebraico - declaram explicitamente lícito o divórcio ou o regulam juridicamente.

Indirectamente, porém, o texto de Deuteronómio 24, 1-4 admite a realidade do divórcio ou repúdio e, portanto, implicitamente, ratifica-o. E assim se entendeu em toda a tradição Judaica.

Mas Jesus contraria frontalmente esta visão tradicional, arguindo de adultério o homem que repudia a sua mulher, e igualmente aquele que casar com a repudiada (Mateus 5, 31-32).
 

2. A cláusula de Mateus 5, 32

Mas como entender a cláusula ou ressalva: “excepto no caso de concubinato” (Mateus 5, 32)?

Será que Mateus adapta ou suaviza os ensinamentos de Jesus sobre o matrimónio?

Diferentemente dos outros textos do Novo Testamento que falam do mesmo assunto (1 Coríntios 7, 11; Marcos 10, 11; Lucas 16, 18), S. Mateus, aqui e no capítulo 19, 9, (que leremos  noutro momento), contém esta famosa cláusula que introduz uma excepção.

Muitos pensam que se trata de um aditamento redaccional de Mateus ou da «tradição», facilitador em relação às exigentes palavras de Jesus Cristo.

É importante notar agora que a palavra que acima vertemos por «união ilegal» é o termo grego porneia, que designa uma conduta sexual ilícita e imoral, que poderia abranger o adultério, mas que não é o termo técnico para designar o adultério, que é antes moicheia.

São três as soluções propostas para o difícil problema desta cláusula:

1)      Primeira, a chamada solução greco-ortodoxa, entende porneia com o significado de adultério, e defende que a cláusula contém uma verdadeira excepção à proibição absoluta do divórcio e das segundas núpcias. Neste caso, a posição de Mateus seria a mesma da escola rabínica de Shammai e diferente da de Jesus. Mateus alteraria assim o ensinamento de Jesus, aceitando o adultério como causa de dissolução do matrimónio.

Mas há uma dificuldade para esta posição: a ser assim, o texto deveria ter moicheia e não porneia.

Esta posição foi defendida há alguns anos, com certa originalidade, numa tese de doutoramento, pelo Pe. Corrado Marucci, S.J. Segundo este autor, (que  publicou esta tese com o título Parole di Gesù sul divorzio ), esta cláusula do Evangelho de S. Mateus pretenderia proteger os cristãos que fossem cidadãos romanos, relativamente à famosa «lei Júlia contra o adultério».
Trata-se  da Lex Julia de adulteriis coercendis, do Imperador Augusto (promulgada em 17 a. C.), segundo a qual o marido era obrigado a denunciar a mulher adúltera e a pedir o divórcio, sob pena de ser acusado de lenocínio, o que comportava a pena de morte.
Para evitar  este perigo,  S. Mateus teria criado esta excepção, permitindo assim a um maridos cristão a prática do divórcio, no caso de adultério por parte da mulher. Mas a argumentação  de C. Marucci não foi considerado convincente.
 
2)      A solução clássica «católica» (defendida especialmente por Jaques Dupont, mas que já remonta a S. Jerónimo), sustenta que a cláusula não contém uma verdadeira excepção, porque não permite o divórcio, mas só a separação sem novo matrimónio, em caso de adultério. Mas, uma vez mais, há que notar que o texto não usa a palavra técnica para adultério.

3)      A solução hoje mais aceite é que a cláusula não contém uma verdadeira excepção à proibição do divórcio, porque o termo técnico que é decisivo, a palavra grega porneia, traduz o hebraico zenut, com o significado de «relações sexuais ilícitas», e que, no texto de S. Mateus, deve ser entendida como uma união incestuosa devida a um matrimónio entre graus de parentesco proibidos (Levítico 18, 6-18).   
Uma união deste tipo não seria um verdadeiro matrimónio, e não exigiria o divórcio, mas sim uma declaração de nulidade ou invalidez.

Deverá ser também este o sentido de porneia em Actos 15, 28-29:  “Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação (porneia)”.

Esta solução é a mais adequada ao texto. Não revela nenhum espírito de adaptação facilitadora por parte de S. Mateus, mas manifesta a sua sensibilidade legal, em que a sua lealdade para com Jesus não é de modo nenhum posta em causa. O evangelista não abre nenhuma excepção à exigente doutrina de Jesus, mas limita-se, por uma questão de clareza e de rigor, a salientar uma situação em que esta não se aplica, por não se tratar de verdadeiro matrimónio. 

Visto que a questão do divórcio é dolorosa, é bom recordar que as intenções profundas de Jesus Cristo não são provocar dor aos casais que fracassam, mas apresentar um alto ideal para o casal, uma visão do matrimónio como uma aliança de amor pessoal entre os cônjuges, que reflecte a relação da aliança de Deus com o seu povo, e que, por isso mesmo, é fiel e indissolúvel. Infelizmente esta visão nem sempre é compreendida e nem sempre é vivida, devido às fragilidades da mente ou do coração humano.